Carlos Lamartine, artista engajado

Publicado: 26 de novembro de 2013 por stephanie100africa em Angola
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carlos lamartineNesse mês de comemoração da independência de Angola, que aconteceu no dia 11 de novembro de 1975, ocasião de muitos eventos organizados pela Embaixada de Angola no Brasil, Conexão África fala de um grande nome da musica angolana, artista engajado, Carlos Lamartine, que se distinguiu, de 1974 a 1977, o célebre período da canção política, como intérprete e compositor e da sua obra ficaram conhecidas, pelo grande público, importantes canções, entre as quais “Ene” (eles), “Ó dipanda wondo tula kiá” (a independência vai chegar), “Zuatenu milela iá xikelela” (vistam-se de panos pretos), “Kimbemba” (canção dedicada a Agostinho Neto),”Pala ku nu abessa ó muxima” (venho cantar para vos agradar), “Etu tuana ngola tua solo kiá” (Os filhos de Angola já escolheram o MPLA), e “Ene ando builé” (Eles, referência aos portugueses, hão-de se cansar). Escutam aqui Ó dipanda wondo tula kiá:

Nascido em Benguela em 1943, Carlos Lamartine começou a sua carreira musical em 1956, com o grupo “Kissueias do Ritmo”, conjunto musical formado por Nando Kajibota (caixa), irmão do Antoninho “Parte os Cornos”, do “Kituxe e seus acompanhantes”, Barceló de Carvalho (vocal e harmónica), David André (Tizinho, vocal), João Gonçalves (bailarino), e Inácio (dikanza e chocalho).
O timbre do grupo ficou marcado pela sonoridade da harmónica de Bonga que imitava a forma como Cabolombo, um instrumentista pouco referenciado pela crítica musical angolana, tocava e investia neste instrumento.
Carlos Lamartine iniciou os estudos primários na Escola da Missão de São Paulo, em 1953, passou pela Escola da Liga Nacional Africana, e ingressou no Liceu Nacional Salvador Correia, em 1956. Passou ainda pelo Colégio da Casa das Beiras (1962-1963), tendo concluído, com êxito, a secção de letras do curso geral dos liceus.
Filho de Sebastião José da Costa, jornalista, dançarino da rebita, e um dos fundadores da Liga Nacional Africana, e de Ludovina da Silva, José Carlos Lamartine Salvador dos Santos Costa, nasceu em Benguela, no dia 29 de Março de 1943. O irmão, Teófilo José da Costa, foi uma das figuras emblemáticas do Carnaval de Luanda, e um dos fundadores do grupo Cidrália. Tanto o pai como o irmão, estimularam a propensão intuitiva de Carlos Lamartine para a música.
De 1958 a 1959, o grupo “Kissueias do Ritmo”, eivado de uma nítida consciência nacional e reagindo contra a crescente onda de repressão colonial, particularmente no Bairro Marçal, popularizou o tema “Em Luanda não há sambas”, uma canção da autoria de Carlos Lamartine, inspirada na rítmica do samba brasileiro.
Com a partida de Barceló de Carvalho (Bonga) para Lisboa, onde foi campeão de atletismo, extingue-se o grupo “Kassueias do ritmo” e Carlos Lamartine integra e ajuda a formar os “Muloges do ritmo”, grupo musical que teve vida efémera.
Carlos Lamartine fez parte ainda, de 1962 a 1964, como tamborista e vocalista, do conjunto musical os “Makoko ritmo”, e enveredou depois por uma carreira a solo, fazendo-se acompanhar pelos melhores conjuntos angolanos da época, de 1965 a 1970, incluindo o conjunto os “Kiezos”, grupo onde veio a substituir, temporariamente, o cantor Vate Costa, seu irmão, depois da sua prisão, na sequência de uma acusação no processo do caso “Milhorró”, uma canção que a ditadura colonial considerou ousada e subversiva.
Em 1970, Carlos Lamartine foi a voz principal do conjunto “Águias-Reais”, com Manuelito (viola baixo), Gregório Mulato (percussão, nos bongós), Gino (Guitarrista solo), somando uma série de êxitos, num dos mais importantes grupos musicais luandenses, que existiu até aos finais dos anos setenta.
Na sua carreira a solo, Carlos Lamartine passou a ser acompanhado e gravou, de 1973 a 1977, com o conjunto os “Merengues”, e participou em diversas tournées nacionais e internacionais, com o emblemático conjunto Kissanguela.



Obra discográfica
Carlos Lamartine gravou o seu primeiro single em 1970, com a etiqueta “Ngola”, um disco que inclui as canções: “Bazooka” e “Jesus dialá uá kidi”. Em 1974, surge o LP “Angola no I”, um monumento discográfico da canção política, com a etiqueta da CDA, gravado com o conjunto “Merengues”.
Depois de um longo período de silêncio discográfico, cerca de 23 anos, surgiu seu primeiro CD, “Memórias” (1997), com a etiqueta RMS, Produções Musicais, disco que voltou a projectá-lo no quadro dos intérpretes mais prestigiados da Música Popular Angolana. Deste disco destacamos o semba, “Nvunda ku musseque”, que foi um dos seus grandes sucessos.
Com o CD “Memórias”, Carlos Lamartine inicia um processo de fusão e modernização da sua música, interagindo com músicos de diversas escolas, criando um produto musical que atingiu níveis consideráveis de aceitação, junto da geração mais jovem.
A canção “Kamuine”, do CD “Cidrália” (2001), registou um enorme sucesso, e Carlos Lamartine granjeou grande prestígio, na interpretação de temas do cancioneiro popular.
Quatro anos depois do lançamento do CD “Cidrália, surgiu o disco “Frutos do Chão, são coisas nossas” (2005), um álbum que privilegiou o género semba, e teve as participações dos instrumentistas Betinho Feijó, Ciro Bertini, Joãozinho Morgado, Cervantes, Carlos Venâncio, Gui Destino, Botto Trindade e da Banda Maravilha. Carlos Lamartine está incluído numa colectânea de cantores e compositores angolanos, denominada “Êxitos de hoje” (1980), editada com o selo da ENDIPU.
O último disco dá pelo título “Caminhos Longos”, editado e publicado em 2007.

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